Auto do Descontentamento

sábado, 28 de outubro de 2017

O púlpito de pedra

in Jornal Cidade de Tomar de 20 de Outubro de 2017




"Feitos e Feitios" tem vindo a "redescobrir" e/ou "relembrar" gentes, acontecimentos e elementos que de uma forma ou de outra fazem parte da história da nossa região templária.
Desta vez, venho presencear na obra do padre D. Raphael Bluetau, a existência nos séculos XIV e XV, de uma prática junto à Igreja de Santa Maria dos Olivais destinada aos judeus e que envolvia um Pulpito de Pedra. (1)
No livro "Vocabulário Portuguez e Latino", volume III, publicado em 1713 e oferecido ao rei D.João V, surge a seguinte informação na descrição da palavra "Judiaria": "o bairro donde algum dia viviam e donde hoje em algumas cidades vivem os judeus (...) nas judiarias viviam os judeus em sua lei, conservados com tanta igualdade de justiça", destacando que até o próprio rei D.João I respeitava os seus dias e tradições, como os sábados e na Páscoa; "(...) não pudessem as justiças reais proceder contra eles" e de acordo com o Padre Raphael "o fim destes e doutros favores" tinha por objetivo se "afeiçoarem à nossa fé" e "por ela se mandavam fazer sermões em certos dias, umas vezes nas Sinagogas e outras os mandavam vir aos adros fora das Igrejas".
Dentro deste raciocínio o clérigo dá como exemplo a informação que foi recolhida pelo Doutor Pedro Álvares Seco (século XVI): "indo fazer o tombo da Igreja de Santa Maria dos Olivaes da Villa de Tomar que junto ao alpendre da ditta Igreja havia antigamente um Pulpito de Pedra o qual fervia de fazerem em dias determinados as práticas aos judeos."
Curiosamente a fonte do Padre Raphael é o tomarense Pedro Álvares Seco, o qual já tive a oportunidade de apresentar, no artigo "Redescoberta de Antiga Quinta tomarense: Família Seco e o Mapa do Cardeal Guido Sforza" no Jornal Cidade de Tomar de 2 de dezembro de 2016. (2)
É sem dúvidas mais um curioso dado histórico a ter em consideração, destacando que em Tomar a história diz-nos que aqui houve uma importante comunidade judaica e de que a Sinagoga de Tomar foi construida entre 1430 e 1460. O Infante D.Henrique terá sido o grande promotor para a fixação de judeus na região, a judiaria criada situava-se onde é hoje a rua Dr. Joaquim Jacinto e os judeus tiveram um importante envolvimento na empresa dos Descobrimentos Portugueses. (3)
O conteúdo destes sermões segundo nos conta o padre Raphael destinava-se a uma possível tentativa de aproximação religiosa, ou até, social e cultural, cuja importância é evidente no reinado de D.João I.
Com base nesta informação fiz uma busca entre outras mais obras, tendo encontrado esta informação "quase perdida" em duas outras.
Este mesmo assunto voltou novamente a ser abordado em 1843 num jornal literário de nome “O Panorama”, onde os autores do artigo revelam (queixam-se) que esta informação veio de um documento ao qual não tiveram acesso, o “Tombo da Ordem de Cristo” de “Pedralvares” (sem dúvidas que se referem ao tomarense Pedro Álvares Seco), mas que, no entanto, um conhecido “amigo da gloria nacional (…)”, “patrício da villa de Thomar, que o leu e percorreu”, de nome “Pedro de Roure Pietra” fornece as informações que surgem neste artigo. (4)
Ou seja, estamos provavelmente perante o mesmo documento de onde o Padre Raphael retirou a existência do Púlpito de Pedra, mas o jornal “O Panorama” através do nabantino Pedro de Roure Pietra, consegue ser ainda mais pormenorizado na descrição.
“Um alpendre cobria e guarnecia a entrada principal, segundo o costume daqueles tempos primitivos, em que todas as construções pias eram para comodidade de todo o serviço religioso, e pouco importavam ostentações, nem simetrias de arquitetura. Este alpendre, ou galilé, como lhe chamavam, era destinado a abrigar os pobres e peregrinos que ali se ajuntavam; servia para pregar ao povo em ocasiões de grande concurso; e para administrar justiça, porque ali estava a cadeira ou séda de pedra do alvazil ou juiz, posto pelos freires, senhores da jurisdição civil e criminal do aro dominial, bem como o eram da eclesiástica. O mesmo Tombo consigna outra antigualha muito curiosa, a de haver ali próximo um púlpito exterior donde se pregava não só à multidão quando afluía, mas para que os mouros e judeus conversos pudessem ouvir a doutrina cristã e catequese antes de poderem entrar na igreja pelo batismo e admissão solene ao catolicismo.”
Comparando as duas notícias, fica só a questão temporal em dúvida de quando começou esta prática, pois o padre Raphael refere-se ao tempo de D. João I e esta última notícia situa esta descrição depois de referir que os reis D. Manuel I e D. João III mandaram fazer grandes intervenções na Igreja de Santa Maria do Olival. Relembro que a inquisição chega no reinado manuelino a Portugal em 1496 e, no caso de o mesmo púlpito ser do tempo de D. João I, já teria cerca de cem anos.
O seu fundamento parece ser, de acordo com o que se apresenta, a sua utilização para a conversão dos ouvintes à fé cristã.
A outra obra é a Monarquia Lusitana de 1672, escrita pelo monge de Alcobaça Frei Francisco Brandão, que nos revela: “junto ao alpendre da Igreja Santa Maria dos Olivais da Vila de Tomar haviam umas casas dos Vigários com um púlpito de pedra pela banda de fora, o qual servia em fazerem em dias determinados as práticas ao Judeus e Mouros, como alcançou por informação dos antigos o Doutor Pedro Álvares Seco indo fazer o tombo daquela Igreja nos últimos anos de D. João III.” (5)
Esta mesma obra permite perceber que esses “antigos” serão realmente do tempo de D. João I, tal como demonstra com outras informações presentes que apontam para o seu reinado.
Estas são fortes fontes escritas, de três séculos diferentes, que permitem concluir com solidez que estamos perante uma informação relevante na história dos Judeus de Tomar, com a importância de ser uma prática que decorria junto à Igreja de Santa Maria dos Olivais.


Bibliografia:

(1)   Bluetau, Raphael.  Vocabulário Portuguez e Latino, volume III, 1713.
(2)   Peixoto, João Amendoeira. Redescoberta de Antiga Quinta tomarense e o Mapa do Cardeal Guido Sforza. In Jornal Cidade de Tomar. 02/12/2016.
(3)   http://www.conventocristo.gov.pt/pt/index.php?s=white&pid=238
(4)   Jornal O Panorama, Nº99. 1843.
(5)   Brandão, Francisco. Monarquia Lusitana. Volume 6. 1672.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Memórias de D. Nuno Álvares Pereira em Tomar - II

in Jornal Cidade de Tomar de 22 de Setembro de 2017


UM MILHÃO DE EUROS EM TOMAR

O artigo “Revelações Tomarenses que antecedem a Batalha de Aljubarrota” publicado no Jornal Cidade de Tomar de 21 de Outubro de 2016 aborda que D. Nuno Álvares Pereira terá sofrido uma tentativa de suborno em Tomar em Julho de 1384, à qual não cedeu.
É assim que nos contam os livros velhos, que de uma forma ou de outra procuram recontar os mestres tais como Fernão Lopes e o anónimo que escreveu a “Crónica Do Condestável” no século XV.
Esta nova abordagem que faço a D. Nuno pretende enriquecer a temática e mostrar a importância destes momentos que poderiam ter em tudo alterado o rumo da história e alterado tudo tal e qual como conhecemos.
Volvendo a obra “A vida de D. Nun`Álvares” (1893) da autoria de Joaquim Pedro Oliveira Martins (historiador, político, cientista), o momento é novamente relembrado:
“Viraram para leste direitos a Thomar, desmantelados como iam. Aí o judeu D. David, cujos bens Nun'alvares havia de herdar, se herdasse, aproximou-se d'ele sorrindo untuosamente, chocalhando a bolsa. Tinha ali mil dobras d'el-rei de Castela... mil dobras de ouro d'el-rei D. Pedro, como já se não cunhavam, agora que só havia prata. ' Sem o maltratar, Nun'alvares observou-lhe que só recebia dinheiro d'aqueles a quem servia.“
De notar o pormenor de que as moedas estão cunhadas com os elementos de um antigo rei à época, D. Pedro de Castela, pois em 1384 o rei de Castela é D. João de Trastâmara.
No artigo das revelações (2016) a obra utilizada foi a “Crónica dos Carmelitas” (1732) de José Pereira Santana, que interpela a mesma situação:
“Passando a Thomar foi notória a necessidade que teve de dinheiro e valendo-se da ocasião Gonçalo Vasques de Azevedo o mandou tentar por um Judeu de grande nome e muita riqueza neste Reino em quem totalmente confiava a Rainha Dona Leonor Telles oferecendo-lhe como em atenção a El Rey de Castela mil dobras e mais se fosse servido: ao qual D Nuno Alvares Pereira, sem ignorar, a dissimulação, respondeu com prudência: Que Ihe agradecia muito a atenção mas que por ora a ainda se podia remediar sem valer-se dele. Por este modo deu o ultimo desengano ao judeu que ficou tão admirado como confuso dos Autores do estratagema.”
Há de ter em consideração que os autores do dito “estratagema” são claramente D. Leonor e João de Castela, através dos seus subordinados.
A aceitação deste suborno por parte de D. Nuno, muito provavelmente teria levado ao sucesso do rei de Castela em Portugal, que seria aclamado rei; enquanto o mestre de Avis deveria ter sido obrigado a exilar-se junto dos ingleses; a ínclita família não teria existido e tudo o que com ela decorreria tal como a Era dos Descobrimentos; e por mais estranho que pareça provavelmente não teríamos a “Janela do Capítulo” em Tomar nem o “Mosteiro dos Jerónimos” em Lisboa.
Este momento é uma lição de moral para todos sem exceção, de acordo com as pequenas notas de Oliveira Martins nesta obra, “o valor comparado temos 28 contos de réis, para comprar o guerrilheiro. Outros se venderam por mais, e também por menos, nos nossos dias.”
Partindo da afirmação de Oliveira Martins e considerando que um conto de reis em 1893 valeria algo em torno de 1 kg de ouro, teríamos 28 Quilos de ouro, cujo valor se pode aproximar de 1 milhão de Euros (200 mil contos na moeda antiga).
A história pertence para a revermos e com ela aprendermos.


Bibliografia:
- Santana, José Pereira. Crónica dos Carmelitas. 1745.
- Peixoto, João Amendoeira. Revelações Tomarenses que antecedem a Batalha de Aljubarrota (Parte I). Jornal Cidade de Tomar, 21 de Outubro de 2016.
- Martins, Oliveira. A vida de D. Nun`Álvares. 1893.

sábado, 9 de setembro de 2017

Memórias de D. Nuno Álvares Pereira em Tomar

in Jornal Cidade de Tomar de 1 de Setembro de 2017



“UMA MULTIDÃO LUZIDA DOS MELHORES DA TERRA” 
                        
As “Revelações Tomarenses que antecedem a Batalha de Aljubarrota” publicadas no Jornal Cidade de Tomar a 21 de outubro e 19 de novembro de 2016, permitem retratar a importância histórica e estratégica que Tomar teve na Crise de 1383-1385 em diferentes momentos.
 Ficou demonstrado que não nos devemos apenas cingir historicamente ao reencontro das tropas de D. Nuno Álvares Pereira e as de D. João I, simbolicamente lembrado na entrada da cidade pela Capela de S. Lourenço, fonte e Padrão de D. João I.
Tão valioso para a História de Tomar como este reencontro de tropas, são as táticas estudadas na vila após este momento, no entanto, estamos perante outro assunto de enorme importância histórica que não está incluído nas quatro revelações já apresentadas.
O seguinte assunto está presente na obra Vida de D. Nuno Álvares Pereira de 1723, escrita pelo Frei Domingos Teixeira, baseada noutras mais antigas como a Crónica do Condestável de Portugal Dom Nuno Álvares Pereira de autor anónimo e a Crónica de D. João I de Fernão Lopes (século XV).
Refiro-me aos acontecimentos ocorridos no período de tempo entre a chegada de D. Nuno Álvares Pereira a Tomar e a chegada de D. João I à mesma vila.
 Segue-se a informação relevante, já com ajustes linguísticos para melhor entendimento:
“(…) passou logo a Thomar onde foi recebido pelos moradores da Villa com não vulgares demonstrações. Conduzido ao General uma multidão luzida dos melhores da terra que fora larga distância se lhe foram oferecer soldados e só admitiu companheiros; aqui sem tomar tempo para o descanso entrou nos novos e modestos cuidados de aquartelar os soldados sem opressão dos patrões e conseguiu a rara felicidade de parecerem mais filhos que hospedes nas casas em que ficaram (…)”
Estaríamos em Tomar a 6 ou 7 de Agosto de 1385, quando D. Nuno Álvares Pereira veio de Abrantes, após se desentender com D. João I por assuntos de guerra.
A juntar a esta deliciosa informação em que os nabantinos ofereceram os melhores filhos da terra a D. Nuno (onde estariam nobres, cavaleiros, povo entre outros) e estadia nas suas casas, há algo mais a partilhar:
 “(…) Tardou El Rei dois dias sem que o Conde permitisse aos seus o andarem vagando porque aquele tempo que precisamente havia de esperar (…) no campo junto a S. Francisco onde formados em esquadrões diferentes se combatiam os companheiros nas aparências inimigos. O Condestável discorrendo a uma e outra parte animava à peleja fazendo daquele certame fingido argumento do valor ou juízo da fraqueza e formando conceito dos afectos na representação castigava a infâmia sem injuria dos cobardes ou escândalo dos tímidos com tão estranha (…) torná-los valentes o raro artificio de premiar os atrevidos (…) Os instrumentos marciais incitavam à briga os golpes sem piedade com que as lanças (…) as espadas se feriam (…) a confusão das vozes (…) aquele espetáculo grato (…)”
A descrição é ardente e rica, descreve muito bem o que se passou na Várzea Grande, frente ao Convento de S. Francisco; onde D. Nuno e os seus experientes homens, sem perder tempo com o desentendimento com D. João I que já estaria resolvido por carta e assim aguardavam a sua chegada em Tomar, treinaram esta gente nabantina através de cenários de guerra, momentos de medo e de euforia, com ambientação às espadas, lanças e outros artefactos de guerra.
Após estes dias de treino intensivo, aconteceu o histórico reencontro com a chegada do recém-aclamado Rei de Portugal D. João I a Tomar, foi montado acampamento, foram estudadas as táticas e novos momentos aconteceram até à partida do exército já unificado, tendo a Batalha de Aljubarrota acontecido a 14 de Agosto de 1385.

Bibliografia:
Peixoto, João Amendoeira. Revelações Tomarenses que antecedem a Batalha de Aljubarrota (Parte I). Jornal Cidade de Tomar, 21 de Outubro de 2016.
Peixoto, João Amendoeira. Revelações Tomarenses que antecedem a Batalha de Aljubarrota (Parte II). Jornal Cidade de Tomar, 18 de Novembro de 2016.
Teixeira, Frei Domingos. Vida de D. Nuno Álvares Pereira. Oficina da Música. 1723.